Atuação imediata nas Picadas por Águas-vivas (Aurélia Auritas e Pelagia noctiluca) e Caravela Portuguesa (Physalia physalia)
Os cnidários são animais de estrutura radial, a maioria dos quais com tentáculos. As espécies presentes no arquipélago dos Açores associadas a acidentes em humanos são as caravelas Portuguesas (Physalia physalis) e as cifomedusas (“águas-vivas”) Pelagia noctiluca e Aurelia aurita.
A caravela-portuguesa, é sem dúvida um dos animais marinhos mais perigosos do mundo, vive na superfície do mar, graças ao seu flutuador cilíndrico, azul-arroxeado, cheio de gás e os seus tentáculos podem atingir 30 metros.
As águas-vivas, nomeadamente da espécie Pelagia noctiluca invadem o litoral dos Açores anualmente, com especial incidência na Primavera e é certamente o animal marinho dos Açores que mais acidentes causa anualmente;
Os cnidários apresentam células de defesa, os cnidócitos, que possuem estruturas de disparo e inoculação na pele da vítima de toxinas neurotóxicas e cardiotóxicas, além de proteínas potencialmente alergénicas;
O envenenamento por cnidários causa irritação na pele, sensação de choque, dor forte e queimadura (calor/ardor), vermelhidão, inchaço e uma dermatite linear urticariforme que reproduz a forma dos tentáculos e/ou outras reações graves.
Os acidentes fatais são muito raros no Oceano Atlântico, mas podem ocorrer e existem relatos de óbitos recentes nos Açores após picada por Physalia physalis.
A caravela-portuguesa, mesmo quando é encontrada na areia, continua a ser capaz de gerar queimaduras.
Os banhistas devem, portanto, evitar o contacto com estes animais, respeitando a sinalética disponível em bandeiras, visíveis nas áreas balneares vigiadas.
Em caso de contacto acidental com um destes animais, deve estar informado do comportamento correto a adotar, no sentido de minimizar as consequências da lesão:
- Remova a vítima da água, para prevenir novas picadas e risco de afogamento;
- Não esfregue a zona atingida, para que as toxinas dos tentáculos se restrinjam a uma área de contacto mínima;
- Remova os tentáculos aderentes, usando preferencialmente luvas, com o auxilio de uma pinça, bisturi ou ferramenta semelhante (e.g. lâmina de barbear, cartão de crédito);
- Lave, abundantemente, a zona afetada com água do mar;
- Identifique, se possível, a espécie agressora (Caravela Portuguesa ou outra);
- Aplique calor para redução da dor, apenas no caso da picada por Caravela Portuguesa (e.g. imergir em água a 45°C ou “hotpacks” por 20 minutos);
- Não aplique qualquer compressão (ligaduras);
- Em caso de persistência dos sintomas por mais de 30/40 minutos após o tratamento recomendado, ou agravamento da situação clínica acompanhado de dificuldade respiratória, recorra à Unidade de Saúde da sua área de residência, ou ao Serviço de Urgência.
- Resultados recentes, sugerem que o uso de ácido acético (vinagre) no caso de picada do cifozoário P. noctiluca, pode ser contraproducente, piorando a dor e o desconforto da zona picada.
- O uso de amoníaco e bicarbonato de sódio, não é suportado pela evidência científica atualizada.
Referências Bibliográficas:
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